» News Archives

CHDS e Brookings Institution conferência: "Implicações Estratégicas da Evolução do Relacionamento da China com a América Latina"

CHDS e Brookings Institution realizam conferência
sobre as "Implicações Estratégicas da Evolução do Relacionamento da China com a América Latina"

No dia 6 de novembro de 2009, o Center for Hemispheric Defense Studies (CHDS), em parceria com The Brookings Institution, realizou uma conferência de um dia inteiro sobre as "Implicações Estratégicas da Evolução do Relacionamento da China com a América Latina." A conferência foi assistida por mais de 220 pessoas, representando uma gama diversa de públicos, desde agências do governo dos EUA até as comunidades diplomáticas, acadêmicas e de negócios, além dos laboratórios de idéias interessados.

CHDS China workshop, November 6, 2009

Dr. Lanxin Xiang

O tom da conferência foi cautelosamente positivo. As relações da República Popular da China (RPC) com a América Latina foram aceitas como um fato, e reconhecidas como transformadoras da região de diversos modos. O foco da conferência foi principalmente em reconhecer e administrar os desafios que podem surgir desse relacionamento, em lugar de um fórum para debater se a China seria uma ameaça que deveria ser contida, ou uma panaceia para o desenvolvimento regional.

O Dr. Frank Mora, Secretário de Defesa Assistente Interino para o Hemisfério Ocidental, aproveitou o evento para apresentar uma declaração política sobre o relacionamento da China com o Hemisfério Ocidental; uma das primeiras ofensivas da administração Obama sobre o tema. Em suas observações, Mora enfatizou que o interesse da administração nas atividades da PRC no hemisfério está relacionado à importância fundamental que a segurança e a prosperidade regional têm para a segurança nacional dos EUA. 

Mora enfatizou que os fortes laços dos EUA com a região e os modos pelos quais esse relacionamento beneficia a região, incluindo o fluxo de remessas para a América Latina, o investimento dos EUA na região (muito maior que o investimento da RPC nela), e o fluxo do comércio bilateral (que é bem maior que o comércio da RPC com a região, pelo qual os EUA, ao contrário da RPC, são um forte importador líquido da região).

Em vez de caracterizar as atividades da RPC na América Latina como uma ameaça, Mora focou as oportunidades de colaboração com a RPC em um contexto internacional. Elas incluem: 1) contribuição com as oportunidades econômicas na região por meio de comércio e investimento, reduzindo, assim, a pobreza, promovendo a diversidade econômica (que apoia as regras democráticas) e promovendo o desenvolvimento, que pode melhorar desafios de segurança, como territórios subgovernados e sem governo, oferecendo incentivos e recursos para fortalecer as instituições governamentais ou apoiar diretamente projetos de infraestrutura que melhoram a comunicação entre áreas remotas; 2) cooperação para lutar contra o tráfico de narcóticos, armas e seres humanos e outras formas do crime transnacional.

Mora reconheceu que, sob as circunstâncias certas, as vendas militares da RPC para a região podem ajudar os Estados a administrar com mais eficácia seu território e a combater ameaças como o tráfico de narcóticos, armas e seres humanos, mas que uma maior transparência da RPC sobre suas intenções e objetivos é necessária.

O orador do almoço, General (apos.) Bernard Loeffke, argumentou que a colaboração em assistência médica e outras atividades filantrópicas poderia servir como base para a colaboração EUA-RPC na América Latina, e que essa colaboração poderia servir como base para melhorar o relacionamento EUA-RPC em geral.

O primeiro painel da conferência reconheceu que o relacionamento chinês com a América Latina vai além do comércio e dos investimentos, e inclui interesses na cooperação militar, tecnológica, política, e sociocultural, uma observação confirmada no primeiro documento oficial da China sobre as suas relações com a América Latina, divulgado junto com a visita do Presidente da RPC, Hu Jintao, à América Latina em novembro de 2008 e reiterada na conferência pelo Dr. Jiang Shixue, a pessoa que conduziu a apresentação daquele documento para o mundo. Porém, apesar do florescimento de novas iniciativas e do interesse de ambos os lados no desenvolvimento do relacionamento, foi reconhecido que as relações da China com a América Latina são relativamente limitadas pela falta de entendimento da América Latina entre os chineses, e também pelas barreiras linguísticas e culturais.

Os Painéis Dois e Três levantaram vários desafios originados dos compromissos econômicos da RPC com a região:

Na medida em que o comércio e o investimento chinês na região aumentam, isso deve representar um interesse cada vez maior nas políticas dos governos que permitem seu acesso às regiões e mercados. Em alguns casos, como a Venezuela, a RPC pode acabar sendo arrastada para confrontos com os vizinhos de Caracas que não apoiam seus interesses mais amplos. A RPC terá de fazer escolhas difíceis e precisa decidir se deve cortar o apoio financeiro e outros aos regimes que ameaçam suas metas mais amplas porque desestabilizam a região, mas que fornecem à RPC mercados e/ou commodities importantes. 

Da mesma forma, a RPC pode ser tentada a pressionar, ou até mesmo a agir contra um regime, se esse regime agir para expropriar ativos importantes da RPC, ou cortar o fluxo de recursos fundamentais para a RPC.

Na política local, na medida em que a RPC se tornar mais envolvida nas operações dos setores extrativistas dos países, ela será desafiada por ambientalistas, sindicatos, povos indígenas e outras forças. As companhias chinesas podem se encontrar em uma posição mais vulnerável que as multinacionais ocidentais ao administrar essas relações, permitindo que cresça até o nível de crise.

No ambiente econômico, o comércio com a RPC pode ter o efeito de reforçar a concentração latino-americana em setores relativamente de baixo valor, como agricultura e mineração, sujeitos às variações nos preços das commodities, embora tenha sido apontado que a América Latina também será responsabilizada se não alavancar as commodities para investir em desenvolvimento mais sustentável.

O Painel Três enfatizou que os laços militares entre a América Latina estão em um nível relativamente baixo, embora em alguns casos a China tenha vendido artigos mais sofisticados, incluindo a venda de radares de vigilância aérea para a Venezuela e o Equador, e aviões de caça para a Venezuela e Bolívia. Um importante fator limitador dessas transações é que o tipo e a qualidade do equipamento chinês frequentemente não atende as necessidades militares latino-americanas, nem pode ser suportado pelas infraestruturas de manutenção existentes.

O Dr. Oswaldo Jarrin, que preside a cadeira de Ministério da Defesa do CHDS, notou que a expansão comercial da China, para o leste através do Pacífico, cruza com a expansão comercial do Brasil, para o oeste através do continente, criando oportunidades e interações estrategicamente importantes onde ambos se encontram, como no Equador.

Uma análise em primeira mão, feita pelo ex-Vicepresidente da Costa Rica Kevin Casas-Zamora, da reviravolta do reconhecimento diplomático pela Costa Rica da República da China em favor da RPC mostra como a antecipação de reais benefícios comerciais, além de uma percepção do surgimento da China como uma potência mundial, pode moldar as ações políticas dos líderes da região.

O Dr. Lianxin Xiang argumentou que mesmo sem más intenções, mal-entendidos estratégicos entre a China e os Estados Unidos não são impossíveis na medida em que a China amplia seu relacionamento com a região.

Embora os conferencistas tenham diferido sobre se há ou deveria haver um "modelo de desenvolvimento chinês" que poderia ser adaptado para a América Latina, os países da região estão examinando com cuidado os exemplos oferecidos pela China, e houve concordância geral de que isso tem implicações estratégicas.

 


Bookmark and Share